this is not a free country
ontem, ao voltar da biblioteca, entramos no trem e um homem jovem com uma pequena mala entrou também. ele parecia estar conversando com alguem lá fora. a princípio não prestei muita atenção no que ele falava. ele fazia perguntas a todos no ônibus.
meu marido (versado em DSM) me perguntou que diagnóstico eu daria ao homem. minha inabilidade em distribuir rótulos não me deixou decidir nada. ele apostou que o homem tinha transtorno bipolar ou talvez estivesse sob efeito de drogas.
o homem perguntava a todos no trem quem ali apoiava as tropas e quem tinha familiares militares. algumas pessoas responderam. uma senhora rechonchuda sorria enquanto ele falava.
quando ele falou que era militar, olhei para a sua roupa e notei uma placa com o seu nome. ele mostrou fotos pessoais com bush, mccain e então mais fotos, dessa vez no iraque. ele é um soldado que estava lutando no iraque. disse que ia nos mostrar algo que talvez não gostaríamos de ver, mas que ele achava que deveríamos ver. ele levantou a blusa e mostrou um buraco profundo que uma bala deixou embaixo de seu braço. uma senhora de vermelho, sentada na minha frente, fechou os olhos, visivelmente aterrorizada, e até o último minuto em que estive no trem ela não os abriu novamente.
o soldado falou de como a guerra era terrível. quem atirou nele foi um marinheiro americano. ele disse que na guerra é isso que acontece: ninguem está apoiando país nenhum, o que acontece sao pessoas matando pessoas. ele ousou dizer que os EUA são um país de merda, “de todos os paises que eu já visitei, os EUA são o único lugar onde as pessoas não se falam nem se cumprimentam em locais públicos”. disse que aos 24 anos estava surpreso de ainda estar vivo. um outro homem jovem se pronunciou dizendo que ele devia calar a boca e que aquilo era um monte de besteira. ele disse que tinha o direito de falar, que estava exercendo a sua liberdade de expressão. o outro homem disse que tinha o direito de não ouvir, mas o soldado não se resignou. começou a falar mais e mais e mais, contar os sofrimentos da sua vida, de como foi estuprado e como perdeu um ex-namorado no onze de setembro.
mais do que ver qualquer tipo de transtorno naquele homem, vi alguém que sofria tanto que não podia conter a dor para si. ele precisava derramar a sua história naquele trem, no meio daquelas pessoas mudas. ele precisava expôr a distância de todos nós, passageiros. enquanto nos dávamos conta da nossa distância nos unimos todos para (ainda que nos esforçando para evitar) presenciar o quanto a guerra parece ter sido o estopim para o derramamento daquele homem, soldado, gay, branco, americano.
na parada seguinte um homem entrou no trem e o soldado saiu. o homem foi atrás dele e percebi que ele era um dos funcionários do sistema de transportes da cidade. alguém provavelmente apertou o botão “em caso de emergência”. alguém desejou isolar a dor daquele homem de sua vida higiênica e sem problemas – ou talvez de problemas muito pequenos.
lá fora ele tentava argumentar com o funcionário do sistema de transportes que ele só estava contando a história da vida dele e que ele deveria perguntar aos passageiros quantos deles gostariam que ele ficasse e quantos gostariam que ele saísse – ele estava certo de que a maioria queria ouvi-lo. se estivesse numa sala de aula, eu levantaria a mão para que ele ficasse.
ele ficou proibido de entrar novamente no ônibus. ficou na porta olhando os passageiros e disse
“isso, meus amigos, é liberdade de expressão!”
a porta do trem fechou e ele foi ficando pequenininho lá fora. foi ficando cada vez maior em meus pensamentos.
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a guerra é uma desgraça completa. nao sei como existe declaraçao dos direitos humanos e o homem ainda vai à guerra. acho que as coisas nao se casam.
…e ninguem ta nem ai pra ninguem. nao importa qual a situaçao. hoje eu vi uma mulher chorando no metrô, de um jeito que eu ja devo ter chorado e nao tive ninguem pra fazer a minima pergunta “vc ta passando bem?” ou coisa do tipo. eu hesitei, parei, pensei em oferecer ajuda, mesmo sabendo que um nao seria quase certo, mas nao consegui falar com ela, porque ja existe um muro entre as pessoas que ta começando a afetar meu proprio jeito de agir às vezes (e isso é foda…). fiquei com medo (nao medo, mas um receio que faz todo sentido) de falar com ela e de ser enxotada… porque aqui se vc oferece lugar pra um idoso no metrô, ele prefere ficar de pé… as pessoas nao se ajudam, se desacostumaram à gentileza, te olham torto se você é solicito, nao confiam umas nas outras, acham que nao precisam umas das outras pra nada, que sao auto-suficientes, têm orgulho. é assim que é. essa é a parte chata do nosso primeiro mundinho.