quem não tem cão caça com gato
e quem não tem acarajé, come falafel. descobri sábado passado essa delícia que é o falafel. um bolinho frito, feito de grão-de-bico, sem vatapá nem camarão mas que é a coisa mais parecida com acarajé já inventada. baiano fora da sua terra, se a sua saudade gastronômica é forte como a minha, procure o restaurante de culinária do oriente médio mais próximo e se acabe!
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retrospecto
5. 2008 foi um ano de artes
não sou artista, nunca serei artista, mas tenho em mim a vontade de me aventurar em todas as artes do mundo. e álvaro de campos nem liga de dar voz à minha paródia tortinha.




4. 2008 foi um ano de crianças
que são a coisa mais linda do mundo, negras, brancas, amarelas, todas elas!
3.2008 foi um ano de morte
de muita separação, de todo tipo de mudança, e da eterna dúvida do que vim fazer nesse mundo
2.2008 foi um ano de sorte
de ver coisas muito bonitas, de ouvir muito amor das pessoas, de celebrar. e o mais importante: casar!, coisa que não acontece todo dia
1. 2008 foi um ano de saudade
de todo tipo de quês, de muitos quens e de um ensolarado onde.
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dois um um dois
- vou tomar um banho rapidinho, nem vou lavar o cabelo.
- que bom que voce não vai lavar, porque o shampoo tá congelado…

o shampoo, que costuma ser azul transparente, virou bloquinho de gelo ao passar a noite perto da janela. eis a temperatura que tornou essa maravilha possível:

e quando a gente pensa que já estava congelando, a cidade nos presenteia com o aniversário mais frio de toda a história da frieza!
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o frio cada vez mais impiedoso faz doer o meu rosto nos dias de ventania e a neve lá fora faz a cidade tão bonita e tão difícil de navegar. depois de alguns meses criando raízes na cidade ela passa a se embelezar e a ser sutilmente hostil. a sorte é que agora tenho um pouco mais do que a cidade e o amor. amizade, pra mim, é feito amor, que nunca pode ser à primeira vista e que leva tempo pra fermentar, pra crescer. e quando te presenteiam com cds e biscoitos é hora de saber que na cidade gigantesca vou um pouco menos sozinha tendo uma amiga pra dividir os trens e os não saberes dos vinte e quantos (poucos, tantos) anos.
neste domingo envelhecerei em pleno solstício de inverno…
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’tis the season to be frozen

e o fim de outono em chicago e’ quaaaase glaciaaaal…
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quem sobe nos ares*…
…nao fica no chao: coisas que eu faço aqui e nao fazia la’
- achar que zero graus celsius ou temperaturas proximas ainda nao e’ frio DE VERDADE. a coisa pega mesmo a partir de -10˚, quando nem duzentos e vinte camadas de roupa vao te aquecer.
- andar despreocupada pela cidade a noite.
- passar minhas manhas com pessoas que vieram (ou que tem raizes no) do mexico, da tailandia, de el salvador, da colombia, da polonia…
- viver numa cidade diversa culturalmente e num bairro mais diverso ainda.
- dar aula de portugues pra uma libanesa num cafe’ onde ha’ uma convençao de travestis negros. aqui ninguem se esconde nem adoece pelo que e’. ou talvez adoeça, mas nao se esconde.
- (quando faz calor) andar de havaianas pra qualquer lugar, inclusive pro shopping. as pessoas se vestem muito mais informalmente por aqui.
- ir a um restaurante turco onde russos cantam “chorando se foi”!
quem fica no chao, nao sobe nos ares: fazia la’ e nao faço aqui
- usar casaco so’ porque esta’ chovendo.
- andar de carro e viver de janelas fechadas, viver no susto.
- ver o por do sol em cima da agua. aqui o sol se poe do lado oposto ao lago.
- poder usar saia e blusa sem manga durante todo o ano.
- cair no mar quase o ano todo… aqui ate’ no verao a agua do lago e’ gelada.
- comer coxinha de galinha…
e agora e’ hora de parar pra nao tornar aguda a saudade ja’ cronica.
(* post inspirado por esse post.)
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suspiro
vivendo
o presente
com intensidade
pois não sei
quais dos momentos
presentes
virarão matéria
precisa
para a saudade
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this is not a free country
ontem, ao voltar da biblioteca, entramos no trem e um homem jovem com uma pequena mala entrou também. ele parecia estar conversando com alguem lá fora. a princípio não prestei muita atenção no que ele falava. ele fazia perguntas a todos no ônibus.
meu marido (versado em DSM) me perguntou que diagnóstico eu daria ao homem. minha inabilidade em distribuir rótulos não me deixou decidir nada. ele apostou que o homem tinha transtorno bipolar ou talvez estivesse sob efeito de drogas.
o homem perguntava a todos no trem quem ali apoiava as tropas e quem tinha familiares militares. algumas pessoas responderam. uma senhora rechonchuda sorria enquanto ele falava.
quando ele falou que era militar, olhei para a sua roupa e notei uma placa com o seu nome. ele mostrou fotos pessoais com bush, mccain e então mais fotos, dessa vez no iraque. ele é um soldado que estava lutando no iraque. disse que ia nos mostrar algo que talvez não gostaríamos de ver, mas que ele achava que deveríamos ver. ele levantou a blusa e mostrou um buraco profundo que uma bala deixou embaixo de seu braço. uma senhora de vermelho, sentada na minha frente, fechou os olhos, visivelmente aterrorizada, e até o último minuto em que estive no trem ela não os abriu novamente.
o soldado falou de como a guerra era terrível. quem atirou nele foi um marinheiro americano. ele disse que na guerra é isso que acontece: ninguem está apoiando país nenhum, o que acontece sao pessoas matando pessoas. ele ousou dizer que os EUA são um país de merda, “de todos os paises que eu já visitei, os EUA são o único lugar onde as pessoas não se falam nem se cumprimentam em locais públicos”. disse que aos 24 anos estava surpreso de ainda estar vivo. um outro homem jovem se pronunciou dizendo que ele devia calar a boca e que aquilo era um monte de besteira. ele disse que tinha o direito de falar, que estava exercendo a sua liberdade de expressão. o outro homem disse que tinha o direito de não ouvir, mas o soldado não se resignou. começou a falar mais e mais e mais, contar os sofrimentos da sua vida, de como foi estuprado e como perdeu um ex-namorado no onze de setembro.
mais do que ver qualquer tipo de transtorno naquele homem, vi alguém que sofria tanto que não podia conter a dor para si. ele precisava derramar a sua história naquele trem, no meio daquelas pessoas mudas. ele precisava expôr a distância de todos nós, passageiros. enquanto nos dávamos conta da nossa distância nos unimos todos para (ainda que nos esforçando para evitar) presenciar o quanto a guerra parece ter sido o estopim para o derramamento daquele homem, soldado, gay, branco, americano.
na parada seguinte um homem entrou no trem e o soldado saiu. o homem foi atrás dele e percebi que ele era um dos funcionários do sistema de transportes da cidade. alguém provavelmente apertou o botão “em caso de emergência”. alguém desejou isolar a dor daquele homem de sua vida higiênica e sem problemas – ou talvez de problemas muito pequenos.
lá fora ele tentava argumentar com o funcionário do sistema de transportes que ele só estava contando a história da vida dele e que ele deveria perguntar aos passageiros quantos deles gostariam que ele ficasse e quantos gostariam que ele saísse – ele estava certo de que a maioria queria ouvi-lo. se estivesse numa sala de aula, eu levantaria a mão para que ele ficasse.
ele ficou proibido de entrar novamente no ônibus. ficou na porta olhando os passageiros e disse
“isso, meus amigos, é liberdade de expressão!”
a porta do trem fechou e ele foi ficando pequenininho lá fora. foi ficando cada vez maior em meus pensamentos.
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procura-se
procuro alguem que se disponha a trocar comigo poemas e trechos de literatura de qualquer estilo, que sejam bons e bonitos. gostaria que a periodicidade fosse semanal, mas pode ser alargada ou encurtada a gosto de quem queira. o que importa e’ aceitar a iniciativa e aumentar mutuamente os repertorios poeticos dos envolvidos. posso eu mesma comecar com uma contribuicao:
Menino de Engenho
(Joao Cabral de Melo Neto)
A cana cortada e’ uma foice.
Cortada num angulo agudo,
ganha o gume afiado da foice
que a corta em foice, um dar-se mutuo.
Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de cegar-me,
e uma cicatriz, que nao guardo,
soube dentro de mim guardar-se.
A cicatriz nao tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube e’ se o inoculado
(entao) e’ virus ou vacina.
- ***
…meu repertorio nao e’ vasto, mas garanto so’ coisa boa!
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